Comunicação e sintonia com o interlocutor

Imagine que você está ouvindo sua estação de rádio preferida e de repente, ela para de transmitir a programação normal: fica fora do ar. Você não entende o que está acontecendo até descobrir que seu rádio não está conseguindo sintonizar a frequência da emissora. Daí você tem a ideia de ligar para a rádio solicitando que eles passem a transmitir a programação em uma frequência diferente, porém compatível com o seu rádio. O que aconteceria após seu pedido? Nada. Por quê? Quem precisa entrar em sintonia é que escuta, e não quem fala.

Da mesma forma, pelo que vimos até aqui, pode ser que você tenha percebido que o egocentrismo ou a desatenção sejam os vilões que atrapalham a sua habilidade de escutar os outros verdadeiramente. Neste caso, o problema não está na forma com que o outro se expressa, mas na falta de sintonia entre vocês. O que acontece na maioria das vezes é que a pessoa que escuta está em um sistema representacional diferente da pessoa que fala.

Como entrar em sintonia com o outro? Esta pergunta destaca para nós o valor da observação durante o processo de escuta. Embora tenhamos falado pouco sobre ela, a observação é uma habilidade rara nos dias de hoje, tendo em vista que a maioria das pessoas não consegue olhar para o outro e perceber como ele se sente ou o que necessita sem que ele precise mencionar isso.  A surdez mental também faz isso: leva a pessoa a não perceber os sinais que o outro está emitindo – não por falta de conhecimento, mas por não observar o outro – seja movido pelo egocentrismo ou pela distração.

No filme Colateral (2004) Tom Cruise interpreta um assassino profissional que acreditava que em uma cidade grande como Los Angeles, uma pessoa poderia morrer ao lado de outra em um metrô e que ninguém se daria conta, porque estariam tão fechadas em seus mundos que não seriam capazes de perceber as dificuldades da outra pessoa se ela fosse incapaz de gritar por socorro. Essa falta de sensibilidade atribuída a pessoas que buscam apenas os próprios interesses representa uma barreira invisível do poder. Se uma pessoa é pobre, depende do bom relacionamento com amigos e familiares a quem pode pedir se precisar de ajuda e, por isso, são mais atenciosos com os outros e com as necessidades alheias, enquanto pessoas ricas podem se dar ao luxo de se preocupar menos com os outros e prestar menos atenção a suas necessidades.

Infelizmente, a capacidade de observar os sentimentos dos outros parece desaparecer até mesmo nas crianças. Há alguns anos, atividades lúdicas com desenhos que as crianças coloriam retratavam crianças em passeios com familiares, brincando em parques com seus pais e amiguinhos ou se divertindo com bichos de estimação. Através deles as crianças podiam perceber as expressões faciais presentes nas personagens e desenvolver em si mesmas a percepção de que como o outro está sentindo por olhar e reconhecer a expressão de determinado sentimento – criando a empatia cognitiva – um tipo específico de conhecimento análogo à empatia intuitiva – presente nas crianças desde o berçário (Goleman, 2014, p.123; Adler, 1999, p.58)

Que a arte serve a este papel não é novidade. Ao observar representações de figuras humanas em obras de arte de grandes artistas, nota-se a mesma função: a expressão vívida das emoções através dos rostos das pessoas. Do riso contido de Monalisa ao espanto escancarado de Medusa, a face tem se mostrado o caminho para o conhecimento do estado interior. Basta que do outro lado haja um observador perspicaz. O Testamento Estético de Paul Cézanne nos traz o preceito: “É preciso observar seu modelo, sentir com precisão e expressar-se com clareza e força. A arte dirige-se apenas a um número excessivamente restrito de indivíduos”.

E ele estava com a razão. Observar e aprender da natureza do outro é uma arte restrita a poucos. Raramente vemos as crianças colorindo desenhos ‘infantis’ e sim, gravuras que retratam os heróis das histórias em quadrinhos – heróis quase sempre mascarados – que escondem sua identidade e principalmente, suas emoções. Neste início de século vimos o lançamento de livros de colorir para adultos que trazem objetos ao invés de gravuras humanas: um ótimo retrato de um tempo em que as pessoas conhecem mais sobre ‘coisas’ do que de pessoas.  É cada vez mais raro encontrarmos pessoas que observam atentamente como os outros estão e quando o fazem, concentram-se apenas nos sinais faciais.

Recentemente durante uma aula sobre escuta atenta mencionei que “quando falamos em ‘expressão facial’ não podemos entender como ‘expressão corporal’”. Um aluno, indignado, disse: “Como não? E a face não é parte do corpo?”. Ele continuou atônito após minha resposta de que este era exatamente o ponto: a face é parte do corpo, não é o todo o corpo. No Ocidente as pessoas tem o hábito de se concentrar apenas no rosto das pessoas e desconsiderar os sinais vindos de todo o corpo. Olhe para sua cédula de identidade e veja como a foto que ali o representa é de seu rosto.

Por outro lado, no Oriente, a cultura percebe a linguagem do corpo melhor do que os ocidentais. Em países como o Japão (e nas culturas do Leste asiático em geral), a sensibilidade às necessidades e sentimentos do outro bem como a percepção de reações não solicitadas é a expectativa-padrão em um relacionamento intimamente sintonizado. A atitude implícita é a de que se eu sinto, você deve sentir também e não preciso lhe dizer o que quero, sinto ou necessito. Uma pessoa precisa estar suficientemente sintonizada com a outra para sentir e agir de acordo com ela sem a necessidade de uma verbalização. Provavelmente, essa capacidade de perceber melhor o outro se deve ao valor dado pelos orientais às relações humanas, à reflexão silenciosa e a se colocar no lugar do outro (Weil, 2013, 34; De Masi, 2014, p. 63).

Ficamos por aqui e até amanhã!

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