03 – Curso de Comunicação

IMG-20190611-WA0023Conforme o combinado, todas as quartas você tem acesso ao conteúdo da próxima aula disponível para que possa acompanhar a aula ao vivo, que em 2020, ocorrerá sempre aos sábados, às 20:00 (horário de Brasília). No próximo sábado, 17 de janeiro, vamos começar a abordar as causas dos problemas de comunicação.

Boa preparação para a aula!

Symon Hill

IMAGINE, POR EXEMPLO, que você encontrou um casal de amigos no shopping. Eles estão passeando com os filhos – um menino e uma menina. Você os vê, se aproxima e pergunta às crianças como elas estão. A menina dá a resposta, mas no caso do menino, curiosamente, quem responde é a mãe. Embora esta situação seja fictícia, infelizmente, em muitos lares, não se estimula corretamente o potencial comunicativo das crianças, simplesmente por não deixa-las falar. Na maioria dos contextos familiares, as crianças não são incentivadas a se expressar, a dizer claramente o que desejam ou esperam que os outros façam a elas. Talvez você pense que já é muito esperar que os adultos façam isso, pois é preciso certa noção de suas necessidades – um tipo de autoconhecimento básico – para saber identificar e expressar o que acontece conosco para os outros. Um clássico desacordo nas camadas dois e três da personalidade.

[2] Não raro encontramos indivíduos com mais de vinte anos que ainda não possuem um autoconhecimento básico. Tem se tornado comum encontrar pessoas que se queixam de um mal estar sem saber o que é. Mas o mal estar passa assim que o sujeito come alguma coisa. Ou seja, ele estava com fome e não sabia. Se o ‘sujeito não sabe nem a hora em que está com fome’, quem dirá identificar seus sentimentos e vontades e expressa-los com clareza para os outros. Mas não é exagero esperar isso de uma criança, desde que se ensine isso para ela. O mesmo se dá com a comunicação. Se o indivíduo não for ensinado a identificar suas necessidades, pensamentos e sentimentos ainda criança, ele pode ter seu potencial comunicativo prejudicado por toda a vida.  Quando adulto ele sentirá ‘fome’ de relacionamentos saudáveis e não saberá que este é o problema.

[3] Pense, por exemplo, em como uma criança aprende que água é ‘água’. Ela aprende por que é ensinada. Alguém um dia nomeou, descreveu ou apresentou a ela o líquido que sacia a sede como sendo ‘água’. Normalmente, quem faz isso são os pais. Esta é uma tarefa muito satisfatória (é uma alegria quando o filho aprende um sinal e consegue expressá-lo verbalmente ou através de gestos), mas isso exige que os pais dediquem tempo para os filhos, tanto para ensiná-los como para acompanha-los e porventura, corrigi-los.

[4] Lembro-me que meu filho Benjamim, à época com quatro anos, chegou ao lado da minha mesa no escritório e perguntou: “Pai, o que é este sinal assim ó: Fúúúúúú!”? (bufando com os ombros caídos para frente e olhos abaixados). Disse a ele que este era um sinal de tédio. A pergunta seguinte foi: “E o que ‘sininifica’ tédio, pai?”. Achei a situação muito engraçada e didática e compliquei um pouco. Disse que tédio era o mesmo que enfado e completei dizendo que tédio era o que uma pessoa sentia “quando estava cansada de uma situação ou condição”. Daí ele disse: “Pai, estou cansado da situação”. Ele havia entendido a ideia de tédio e imediatamente incorporou esta nova definição da realidade em seu vocabulário. Embora diálogos deste tipo tenham se repetido com frequência, não posso deixar de reconhecer que eles só aconteceram porque adaptei minha rotina para passar o máximo de tempo possível com ele e sempre que a situação permite, procuro estimular o raciocínio dele e provocar a identificação e expressão dos seus pensamentos.

[5] Obviamente, sei que para muitos pais é difícil passar tempo com os filhos. Em alguns casos por condições de trabalho e rotina da família e em outros, por causa do perfil dos próprios pais. De acordo com a fonoaudióloga infantil Elisabeth Giusti, o perfil dos pais interfere no desenvolvimento da fala dos filhos. Em um estudo junto ao Instituto Hanen, do Canadá, ela identificou sete diferentes tipos de perfis dos pais e suas respectivas formas de interação com os filhos, cada uma levando a um tipo de relacionamento, desde os pais “animadores” até os “ajudantes”. Mas a especialista é categórica em dizer que o tempo que se passa com os filhos é essencial para estimular as crianças. Entre os desafios estão o acúmulo de funções da mãe – que chega a consumir até 20 horas semanais – tempo anteriormente gasto para passar com a família.

[6] Um sem número de pesquisas tem mostrado como os pais têm feito da televisão (e mais recentemente do computador) uma babá para os filhos. Uma ação com consequências também danosas para a comunicação entre eles. Uma reportagem apresentada pelo portal Pais&Filhos em outubro de 2013, mostrou que um levantamento feito pela empresa de pesquisa e inteligência de mercado Expertise, em parceria com a ferramenta de pesquisa online HeapUp,  “apontou que 43% das crianças recorrem ao Facebook para esclarecer suas dúvidas, preferindo a rede social aos pais”. Não por acaso o tema da matéria era “Crianças confiam mais no Facebook que nos pais”.

[7] Mesmo os especialistas recomendando no máximo duas horas por dia de tela (o que inclui TV e computador), 43% das crianças passavam entre 4 e 6 horas por dia, conectados. E 58% deles, responderam que os meios de comunicação digital atrapalhavam o relacionamento com a família. Paralelo a isso, as crianças estão indo cada vez mais cedo para as escolas e passando mais tempo lá.

[8] Por exemplo, na Espanha, 66% dos pais consideram que não passam tempo suficiente com seus filhos e 22% das crianças passam mais de 8 horas diárias na creche enquanto 86% dos filhos de famílias espanholas passam pelo menos 5 horas diárias na creche ou escola, de acordo com dados do Estudo Creche e Família, publicado em dezembro de 2013. No Brasil, o número de crianças matriculadas em creches aumentou 7,5% em 2013, conforme os dados do Censo da Educação Básica, que fez a comparação entre os anos de 2012 e 2013. Ao todo, 7,590 milhões de matrículas foram realizadas na educação infantil em 2013.

[9] No entanto, tenho visto que muitos pais acreditam que ao enviar as crianças para escola mais cedo, estão dando a elas ‘educação’ quando na verdade, elas estão aprendendo sim, mas não de acordo com o que eles esperam que elas aprendam – isso quando os pais esperam que o filho aprenda alguma coisa. O comentário é triste, mas alguns pais simplesmente deixam a criança na creche ou escola para que possam ‘ganhar a vida’ e não se preocupam em acompanhar o desenvolvimento do filho.

[10] Certa vez, fui ministrar uma palestra para crianças de 12 anos sobre autoestima, numa escola pública.  Minutos antes que eu subisse ao palco, a diretora recebeu uma ligação de um pai, questionando o fato de que a escola entraria em recesso para uma reforma. De acordo com ele, o problema não era o fato de que a escola precisasse de uma reforma, mas onde ele deixaria o filho durante o período da reforma. Ao desligar o telefone e me contar o caso, ela concluiu dizendo: “Muitos pais simplesmente depositam os filhos aqui. Não estão preocupados com o bem estar das crianças, nem com o que acontece com os filhos na escola”.

[11] Este ‘descaso’ paterno em relação ao desenvolvimento do filho ocorre também no que diz respeito à comunicação interpessoal visto que muitos a consideram uma habilidade natural, que uns tem mais do que os outros. Talvez pelo fato de nunca terem considerado que a primeira habilidade de comunicação que aprendemos é ouvir, seguida por falar. Depois, aprendemos a ler e escrever. Alguns pais pensam que enviando os filhos para a escola eles aprenderão a se comunicar com os ‘outros da sua idade’, mas se esquecem de que no ambiente da creche ou da pré-escola, o ‘ensino’ se concentra (além de brincar com outros da sua idade) apenas em duas das atividades de comunicação: ler e escrever. Passamos 15 ou 20 anos nos bancos das escolas e universidades, mas pelo resto da vida passaremos falando e ouvindo. As duas habilidades da comunicação interpessoal que mais usamos (e usaremos na vida) não nos são ensinadas.

[12] Para agravar ainda mais, estas habilidades (falar e ouvir) estão sendo desestimuladas. Por exemplo, em janeiro de 2009, a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) contabilizou 154,6 milhões de assinantes de telefonia móvel e de acordo com o IBGE, é impossível saber exatamente a faixa etária dos assinantes, o que significa que temos neste grupo (que representa, em média, 81% da população brasileira) pessoas de todas as idades. Simultaneamente, as operadoras de telefonia móvel oferecem planos de pacote de dados com mais vantagens econômicas do que o pacote de voz. É difícil encontrar hoje, pessoas que não dispõem de internet no celular, que não usem o WhatsApp ou que não acessam o Facebook pelo smartphone. Nos meios de comunicação usados na telefonia móvel, é mais barato escrever do que falar. Usa-se mais o dedo do que a língua[1]. Como todo músculo que, sem exercício se atrofia, a língua está perdendo a utilidade na boca de muita gente.

[13] Se dentro do lar, falta estímulo para que a comunicação interpessoal se desenvolva, não adianta esperar que esta habilidade se desenvolva depois de o filho ‘sair de casa’ indo para a escola. Os pais precisam incentivar a habilidade de comunicação dos filhos. Esta responsabilidade é deles, não da televisão, da internet ou dos professores. Principalmente no caso destes últimos, que como categoria, não sabem comunicação nem mesmo para eles. Esta afirmação nos leva ao nosso segundo ponto de sustentação da má comunicação: o ensino equivocado da comunicação.

[1] As pessoas estão tão longe da realidade que a falta de sinal de internet incomoda mais que a sede. Temo que ao se tornarem dependentes da comunicação pelo texto, as pessoas não saibam se comunicar verbalmente caso fiquem sem essa forma de expressão e precisem se comunicar umas com as outras, olho no olho, cara-a-cara. O perigo disso está no fato de que diante de uma situação de catástrofe natural, por exemplo, as pessoas ficarão expostas ao conflito por não saber  como se fazer entender enquanto falam e escutam (não enquanto leem e escrevem)  umas às outras. A comunicação interpessoal é algo que se faz com os outros e não para os outros.  Muitas pessoas ficarão desesperadas por não saber como se expressar e recorrerão a força para se fazer entender. Desespero gera violência. Em pouco tempo, as pessoas se agredirão umas as outras se a língua não voltar a ser usada para falar.

Se você perdeu a aula do último sábado, assista agora:

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: