09 – Curso de Comunicação

EM MEUS CURSOS E SEMINÁRIOS, quando pergunto aos participantes, o que eles entendem por ética, as respostas são as mais variadas e também as mais interessantes. Elas geralmente se dividem em três grupos: alguns dizem que é a noção de certo e errado; outros que é o mesmo que moral, sendo a diferença apenas etimológica; alguns ficam em cima do muro – apresentando uma visão de ética “moderna” onde tudo é relativo – talvez querendo parecer atualizados. De modo que os três grupos de participantes apontam definições diferentes sobre a mesma palavra, o que para mim é preocupante, já que muitos deles estão trabalhando juntos na mesma empresa e estão confusos em relação a algo que, inconscientemente, influencia o trabalho deles.

[2] Assim, se você ao ler estas definições, ficou com alguma dúvida ou se identificou com um dos três grupos, não se preocupe. Você não é o único confuso a respeito da ética. Neste exato momento, se digitarmos no Google a palavra “ética”, receberemos 2 milhões e trezentos mil links prometendo esclarecer o assunto. Entretanto, são os mesmos artigos e trabalhos indicados pelos tais links os responsáveis pela confusão generalizada que temos hoje.

[3] Meu interesse por este assunto se dá, porque como dito anteriormente, muitas pessoas rejeitam o aprendizado sobre posicionamento e sua relação com a influência, por aponta-la como antiética ou imoral. Como consequência, estas pessoas não desenvolvem seu poder de comunicação e ficam expostas à manipulação. Para dissipar esta nuvem de definições confusas sobre ética, resolvi buscar na origem do termo o que realmente significava o conceito na fonte original.

[4] Em primeiro lugar, se a ética é uma noção entre o “certo ou errado” ela só faria sentido em relação a alguma outra coisa. Certo e errado em relação à que? É preciso algo ou alguém para determinar o que é certo ou errado e a partir daí definir como agir de acordo com isso. Por exemplo, no ambiente empresarial, o certo e errado é determinado pelo código de ética ou regimento interno da empresa. Geralmente quem determina as normas deste regimento é o fundador da empresa, o dono do capital e não os funcionários. Se o indivíduo quer fazer parte daquele grupo, precisa se adaptar ao regimento interno, inibindo a vontade própria. Assim, as ações dos funcionários se tornarão certas ou erradas em relação à opinião do diretor. Mas em relação às questões da vida cotidiana, quem define o que é o certo e errado?

[5] Para quem diz que a ética é o mesmo que a moral resta saber a que moral a pessoa se refere. Esta última objeção é a mais interessante. Afinal, quando falamos que ética e moral são a mesma coisa, estamos combinando um entendimento filosófico e político (no sentido de vida em sociedade) com um conceito teológico e transcendental. Esta disparidade, fruto da confusão atual sobre o termo me colocou diante de um impasse, provocado por um ponto principal: em que momento a ética e a moral passaram a ser consideradas sinônimas?

[6] Para responder a esta pergunta, voltei aos gregos antigos, que cunharam o termo. De acordo com o Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, de Antenor Nascentes, ética vem do grego ethike, e significa “aquilo que é relativo aos costumes”. Para os gregos a questão envolvia a busca do homem pela felicidade. A ética era uma forma de levar a vida buscando fazer o bem. Sócrates acreditava que o bem sempre faria com que o sujeito deixasse de praticar o mal assim que aumentasse em conhecimento. Sob este prisma, só não era virtuoso quem não conhecia a virtude, pois se a conhecesse, sua adesão a ela seria imediata. O problema surge quando, para levar a vida particular preciso ao mesmo tempo conviver com os outros: pode ser que a maneira como o outro busca pessoalmente a felicidade, cause a minha infelicidade.

[7] Platão, entretanto, afirmava que havia dois mundos. Um atual, material e um pós-morte. Assim, mesmo que o indivíduo levasse uma vida pautada por ações boas ou más, a felicidade só seria alcançada em outra vida, espiritual após a morte do corpo[1].  Ora, se a felicidade só pode ser alcançada após a morte, viver bem agora esperando uma recompensa que pode não vir, coloca o desejo humano no centro da questão: agora o homem deveria decidir viver ou não uma vida voltada para o bem para viver em harmonia com os outros no mundo sensível. Se a felicidade era uma hipótese pós-morte, não se deveria esperar por ela no presente (isso embasará uma crença do catolicismo na idade média, conforme veremos à frente).

[8] Mas algumas das ideias de Sócrates e Platão encontraram firmeza nas conclusões de Aristóteles. Este deixou para a posteridade um verdadeiro tratado de ética, bem como uma ciência política que segundo ele facilitaria para aqueles que a seguissem, encontrar a felicidade tanto no presente – em particular e em sociedade – como no futuro, seja ele onde fosse. Para Aristóteles, a política – ciência que estuda a conduta individual do homem em sociedade, engloba a ética – ciência da conduta individual do homem[2]. Se a ética é a busca pessoal pela felicidade e a política refere-se à felicidade na vida social, a ética tem assim um sentido transcendental e neste ponto, nota-se uma tendência à religiosidade – a busca do homem pela transcendência – uma preocupação além da vida social presente. Assim, é fácil ver que para os gregos antigos a ética não tratava da vida do indivíduo em sociedade. Tinha relação com a vida particular e com a busca do homem pela felicidade.

[9] Por outro lado, a política tinha a ver com a vida do homem em sociedade. Quando os costumes éticos (particulares) eram sobrepostos aos costumes políticos (coletivos), esta tinha prioridade por se tratar da ‘felicidade’ da maioria, ou seja, do bem-estar da sociedade. Isso é importante frisar porque nos ajuda a compreender em que ponto da História a ética e a moral passaram a ser consideradas sinônimas: no momento em que a política começou a ditar os costumes particulares.

 

ÉTICA = COSTUMES PESSOAIS                           POLÍTICA = COSTUMES COLETIVOS

 

[10] É sabido de todos que o cristianismo partiu do sistema judaico, tendo como ponto de divergência a vinda do Messias que, para os cristãos já veio uma vez e voltará uma segunda, e que para os judeus, ainda não veio. Entretanto, existem muitos pontos em comum nas duas crenças, em especial na maneira cotidiana de levar a vida. Em ambas as religiões, acredita-se que a vida é cheia de percalços, asperezas e dificuldades consequentes do pecado original. Mas na última crença, da qual surgiu o catolicismo, há a influência do pensamento de Zoroastro, ou Zaratustra, fundador do zoroastrismo – religião difundida no mundo antigo, por volta dos séculos XVIII e XV a.C.

[11] Uma influência clara deste pensador nos dogmas do catolicismo está na crença do inferno de fogo. Esta religião monoteísta tem em sua essência a contraposição entre o bem e o mal. O zoroastrismo aponta a falta de discernimento, confusão e desorientação como o caminho do mal, enquanto o caminho do bem é marcado pelo dom da certeza, da clareza e distinção. No catolicismo existe a crença entre o paraíso celestial e o inferno de fogo, onde quem vive no presente uma vida de virtudes pode esperar viver no primeiro, enquanto que, para aqueles que permanecem ignorantes em relação aos caminhos do bem, restará o tormento eterno no segundo destino (De Masi, 2013, p.145). Este paralelo, que alguns julgam ser mera coincidência, é apenas um exemplo de muitas influências no mundo religioso dito cristão que não vieram diretamente dos exemplos da vida de Jesus e nem do judaísmo.

[12] O zoroastrismo foi uma religião muito difundida no mundo antigo, com seguidores na Ásia Central, do Paquistão à Arábia Saudita, sobretudo na Pérsia. Ainda hoje, esta religião tem aproximadamente duzentos mil seguidores ao redor do mundo, segundo o sociólogo italiano Domenico De Masi. Não seria estranho se, os filósofos gregos que legaram para o mundo moderno pensamentos sobre mundo sensível e insensível, além de uma vida pautada pelo exercício das virtudes, tivessem sofrido a influência dos ensinamentos de Zoroastro que viveu dez séculos antes deles. Isso seria tão comum como a influência que o pensamento de Platão teve sobre o teólogo e filósofo Agostinho de Hipona.

 

 “A partir de meados do 2° século AD, os cristãos que tinham conhecimento de filosofia grega passaram a sentir a necessidade de expressar a sua fé em termos desta, tanto para a sua própria satisfação intelectual como para converter pagãos instruídos. A filosofia que mais lhes convinha era o platonismo”.

– The New Encyclopædia Britannica

 

[13] Quando o imperador romano Constantino subiu ao poder, ele precisava reforçar a crença das pessoas de alguma forma, visto que a fé nos deuses romanos estava em decadência. Para unificar o povo, ele precisaria entrar na vida particular de seus súditos, o que incluiria mudar a maneira de pensar deles para que esta combinasse com os interesses de Roma.  Reconhecendo a força do catolicismo que na época já estava presente em todo o Império, ele pensou em usar a estrutura física da Igreja para lhe dar sustentação política e revitalizar seu domínio. No entanto, os dogmas da Igreja ainda não estavam consolidados, nem sequer definidos, o que permitiu que novos credos fossem acrescentados na doutrina católica – muitos deles, vindos de origens contrárias às do catolicismo – o que tornou a nova religião atrativa para os povos recém-conquistados que, agora podiam ver similaridades com seus antigos costumes. Assim, no quarto século, Constantino fez do catolicismo[3] a religião oficial do império. Com o objetivo de unificar o Império Romano (interesse político), ele ‘harmonizou’ o povo por criar uma religião universal (interesse ético). O que antes tinha interesse pessoal – os costumes religiosos de uma vida que buscava a felicidade e, segundo Aristóteles, de caráter ético – agora era de domínio público, passível de punição caso fosse contrário aos interesses políticos.

[14] Após a queda do Império Romano, a igreja assumiu de vez o papel de Igreja-Estado, o que abriu caminho para a fusão de princípios filosóficos e teológicos. Quando, Agostinho de Hipona fundamentou a moral católica com elementos filosóficos mais especificamente vindos de Platão, tinha por objetivo ajudar os humanos a serem felizes, promovendo um encontro do homem com Deus. Para isso, segundo ele, era preciso não só uma vida de comunhão, mas o encontro com o ser divino após a morte. Daí a ligação entre o pensamento de Agostinho e de Platão que nos interessa. Se Deus é Espírito, ele está numa ‘categoria’ diferente de ser e, portanto, a única forma de o homem encontrar a felicidade suprema, segundo o pensamento de Agostinho seria após a morte do corpo, contando é claro que a alma fosse imortal. Neste sentido, a ética grega (meio pelo qual o homem buscava a felicidade) se fundiu com a moral católica (meio pelo qual o homem buscava a transcendência).

[15] O pensamento de Tomás de Aquino, que viveu no século XIII, d.C, concorda com o pensamento de Agostinho mas procura fundamentar a moral católica nos ensinamentos de Aristóteles, tentando provar assim que não haveria nenhuma disparidade ou discordância entre o pensamento filosófico e teológico. Deste modo, as ideias de Aristóteles sobre a busca do homem pelo melhor modo de vida, passou a ser o caminho apontado por Tomás de Aquino sobre como levar a vida com vistas a alcançar a divindade por praticar as virtudes católicas. Ao usar a palavra moral para referir-se em latim à mesma necessidade que a palavra ética tratava em termos gregos, os teóricos do catolicismo apresentaram os caminhos e virtudes da fé católica como sendo a forma para a contemplação aristotélica e o acesso ao outro mundo platônico.

[16] Portanto, a ética e a moral passaram a ser consideradas sinônimas quando Agostinho e Tomas de Aquino embasaram as crenças do catolicismo no pensamento filosófico grego. Agostinho acreditava que a Igreja deveria se envolver em assuntos políticos e se esforçou para mostrar a similaridade entre estes dois campos. Daí, a filosofia grega se fundiu com a teologia católica. Para Tomás de Aquino, a moral era o exercício das virtudes e estas são individuais, não coletivas. O ponto é que a ideia de ética para os gregos é diferente da que se tem hoje. Em geral, quando alguém diz que determinada ação é “antiética”, quase sempre quer dizer que é “imoral”, ou seja, fala do ponto de vista religioso, individual.

 

ÉTICA = FILOSOFIA (POLÍTICA)                   MORAL = TEOLOGIA (CATOLICISMO)

 

[17] Ao longo do tempo, é claro que muitas pessoas foram dando palpite no assunto. Muitos filósofos contribuíram para a confusão do próprio conceito de ética. Desde o tempo de Aristóteles, muitas interpretações foram feitas e, minhas colocações aqui não visam em nenhum momento, questionar as ideias dos pensadores gregos e muito menos dos teóricos do catolicismo. Todos os pensamentos que se seguiram depois desta fusão entre moral e ética tratam as duas coisas como sendo uma só, com conotação política (vida em sociedade). É óbvio que o modo como uma pessoa leva a vida particular (moral) interfere em suas decisões de convivência (ética). Nos dias de hoje, ética tem tudo a ver com o que uma pessoa faz e em como isso afeta o bem-estar do outro.

[18] Quando digo que a ética é interpessoal e a moral é intrapessoal refiro-me ao fato de que, os interesses centrais de cada palavra são diferentes. A ética é uma regra de convivência. A moral uma forma de levar a vida de acordo com a própria consciência. O Dicionário Brasileiro Globo, define moral como “aquilo que é ligado ao espiritual”. Aqui vemos a relação com a busca pela transcendência – um conceito totalmente religioso. Quando o sujeito está sozinho é que importa o que ele faz ou fará em relação a si mesmo. Se isso o aproximará ou não da essência divina, pouco importa para os outros. É um problema só dele. Porém, quando as ações dele interferem no bem estar dos outros, aí sim, o que ele faz passa a ser socialmente ou politicamente relevante. Do contrário, é cada um por si.

[19] No conceito original (aristotélico) a ética tem a ver com a vida prática. O foco dela é agir bem em relação aos outros. A moral, por outro lado tem seu foco no intelecto teórico, contemplativo que busca aproximar o homem de sua essência divina. É o que justifica sua consciência. A moral tem a ver com a elevação do homem a um estado mais nobre e, consequentemente mais feliz. A ética tem a ver com viver bem (e feliz) agora, enquanto convive com os outros.

*

[20] Isso nos mostra algo muito interessante: a discussão moral, contemplativa, tem seu lugar próprio que, não é o ambiente empresarial. Na empresa, trabalha-se de acordo com o desejo do patrão. Age-se com a razão prática de Aristóteles, visando fazer o bem. Fora da empresa o sujeito pode gastar seu tempo contemplando. Aquela história de “fazer o que gosta” é uma patacoada. No trabalho, deve-se ser ético – seguir as normas da empresa. Se quiser fazer o que gosta, acreditando que este é o caminho para ser ético consigo mesmo (moral), é melhor que você empreenda. No ambiente social da empresa é preciso ser ético em relação à ela. Quando isso não acontece, graças à confusão entre os dois termos, a pessoa perde a noção do que é particular e do que é público. Do que é seu e dos outros. Do que pode e o que não pode fazer.

[21] Recentemente, abri o portão de casa para tirar minha moto quando, minha vizinha, uma senhora que cria três cachorrinhos, os levava para passear e fazer suas necessidades. Até aí tudo bem. Mas um de seus cachorrinhos estava defecando na minha calçada, bem onde eu passaria quando saísse. Quando abri o portão, vi o cachorrinho lá em ‘vias de fato’ e falei com ela. A resposta clássica foi: “Do que você está reclamando? A rua é pública!”.

[22] Contei até três e disse a ela: “Por isso mesmo. Se a rua fosse particular eu alugaria meu espaço para que a senhora fizesse de latrina para o cachorro. Justamente por ser um espaço público é que a senhora não pode fazer o que está fazendo. A senhora está colocando o interesse pessoal (levar os cachorros para defecar na rua, não dentro de seu próprio quintal) à frente do bem estar coletivo”. Parece que ela entendeu, pois depois deste ocorrido, não a vi mais na rua pela manhã a passear com seus cachorros. Da mesma maneira, o ambiente de uso público é um espaço que não pode ser tratado como particular. Quando se vive em sociedade e busca fazer isso bem, deve-se deixar o interesse pessoal de lado. O indicador de desempenho passa a ser o interesse de todos e não seu próprio valor.

[23] No mundo corporativo, quando se fala de ética refere-se a um conjunto de normatizações definidas pelos diretores que regem a convivência de pessoas com diferentes conceitos de moral e que atuam dentro de um mesmo espaço. Se, esta visão é utilitarista, pragmática, ambientalista, racional, universalista, naturalista etc. – pouco importa. O conceito de ética empresarial resume-se exclusivamente no interesse do fundador da empresa. Em termos mais simples, um código de ética ou como alguns chamam “o regimento interno” refere-se a como as coisas devem ocorrer dentro do ambiente daquela empresa, do ponto de vista de quem manda. A transcendência, a contemplação, a religiosidade fica por conta do sujeito depois que ele sair da empresa. Quando ele chega a sua casa, não enquanto trabalha.

[24] Deste modo, seria razoável concluir que a questão da ética se manifesta em ações quando fazemos o que precisa ser feito, mesmo que para isso, seja preciso renunciar a si mesmo (o que já fazemos quando nos convém). Vivemos em meio a outras pessoas e se quisermos fazer parte deste ou daquele grupo, teremos que nos sujeitar ao código de ética vigente dele. Quem age com prepotência dificilmente entende o conceito de ética como arte da convivência, pois tenderá a agir com base na sua própria moral, defendendo que este tema é um conceito subjetivo, de ponto de vista, quando na realidade, relativo, não o é. O fato de sua consciência não o acusar de que seu comportamento é antiético, não torna o comportamento socialmente aceitável. É a excessiva preocupação com a moral (consigo mesmo) que torna a influência tão necessária. Só através de um processo de influência consegue-se garantir ações adequadas do ponto de vista ético (convivência).

*

[25] Na pós-modernidade, a ideia de ética sofreu novas transformações. Quem quer que deseje ser aceito por um determinado grupo, precisa respeitar a ética vigente dentro daquele determinado contexto. Cada ambiente social tem um código de ética. Não compreendê-los, faz com que a pessoa os misture. É por isso que, quando uma pessoa quebra as regras no trabalho, por exemplo, e é repreendida por seu supervisor, ela responde: “Nem minha mãe (pai) fala comigo desse jeito!” Mas ela esquece que o supervisor não é seu pai, nem sua mãe. As responsabilidades impostas aos pais pela ética do relacionamento entre pai e filho, não se aplicam ao relacionamento patrão-empregado, líder-subordinado. O mesmo acontece com a relação professor-aluno, na relação conjugal, na vizinhança e em todos os locais onde pessoas distintas em sua cultura e costumes convivem. Entender a ‘ética’ de cada ambiente é essencial para saber se comportar nele.

[26] A palavra ambiente aqui, tem o sentido de campo social e refere-se ao contexto comum a todas as pessoas que compartilham os mesmos interesses, disputam os mesmos objetos de poder e vivem regidos pelas mesmas regras (Leia também o Livro IV, cap. 4). Nossa consideração sobre a ética e os campos sociais concentra-se, obviamente, no campo social do trabalho, onde este conceito já funciona a um bom tempo. Por exemplo, o que vale para o campo social do Direito, não vale como ética para o campo político. O que vale para um administrador de empresas, não vale para um psicólogo. E isso parece fazer todo sentido. Quem define o código de ética dos advogados? A OAB. A ética médica? O Conselho de Medicina. Para os engenheiros? O CREA. E por aí vai! Cada grupo de profissões tem o seu órgão regulamentador. Cada grupo define o que é ético para si.

[27] Para se jogar o jogo empresarial, é preciso se adequar à regra, da mesma forma que para ser advogado precisa passar no exame da Ordem, assim como na publicidade que exige que um publicitário de prestígio ganhe um troféu em Cannes. A ‘ética’ destes grupos sociais é essa. Nesta perspectiva, cada grupo social tem mesmo uma ética ‘particular’, sendo, portanto é impossível ter uma definição de ética que se aplique a todos. Como ninguém passa a vida inteira apenas em um grupo social, as pessoas tendem a adquirir uma moral líquida. Elas se conformam, isto é, pegam a forma que o mercado precisar. Se a ética do campo social exige que se pague propina para vender mais, o sujeito paga. Se for falar mal do concorrente, o indivíduo fala. Se o esperado é ser promíscuo, a pessoa assim o é. Se o ‘normal’ é rir das piadas sem graça do chefe a pessoa começa a ensaiar a risada em casa para parecer natural…

[28] Desta maneira, o indivíduo acaba sofrendo a influência do comportamento vigente e perde a noção de moral. Devido à sua falta de habilidade de comunicação o sujeito não tem um senso de identidade definido, tornando-se facilmente influenciável. Com o tempo, a influência se torna tão grande que o colaborador começa a misturar os valores da empresa com os dele.

[29] A pergunta agora é: qual a ética do grupo social a que você pertence? Sem saber isso é como entrar numa quadra de vôlei para jogar com as regras do futebol. Cada campo social tem seu código de ética, sua maneira própria de definir o certo e o errado, o aceitável e o repreensível. A ética dentro de um campo social é o conjunto de regras de convívio daquele grupo. Deste modo, é preciso conhecer as regras do campo social e agir de acordo com elas.

[30] Os valores que fazem o sujeito agir desta ou daquela maneira (a moral individual), podem ser influenciados pelo meio a que ele pertence (a ética do campo social). Por exemplo: um vendedor que tenha valores cristãos no pleno sentido da palavra ‘cristão’, se quiser permanecer trabalhando como vendedor terá que abrir mão de falar a verdade sempre, pois não existe produto ou serviço que seja infalível e não tenha algo ruim que não precise ser escondido. Se um cliente perguntar se determinado produto tem especificamente aquele defeito que o vendedor sabe que tem, ele terá (por valores pessoais) responder que sim. Logo, de acordo com os valores empresariais ele perderá a venda. Para permanecer como membro de um grupo social é preciso se apegar à ética (os valores) deste grupo. A ética não está separada do pensamento dominante no grupo.

[31] Considere outro aspecto dos campos sociais: o que faz de alguém um representante legítimo dentro de um grupo? Todo contexto social tem uma noção de quem é uma autoridade dentro dele. Numa tribo de índios, o pajé é a figura de autoridade. Na empresa é o diretor. Esta noção de autoridade faz do pajé e do diretor porta-vozes legítimos daquele grupo social. Assim, quem deseja se posicionar dentro de um campo social precisa compreender que noção as pessoas que fazem parte do contexto social em que ele está inserido têm do que é ou não uma autoridade legítima dentro daquele contexto. Ao se posicionar como um comunicador competente, a pessoa se torna uma referência para os demais dentro daquele campo e isso faz dela automaticamente uma figura de influência dentro dele. Isso equivale dizer que um comunicador competente é um líder dentro do seu campo social.

[32] Um médico é uma autoridade no contexto do hospital, porém no trânsito seu diploma perde o valor para o do guarda de trânsito, ou seja, a noção de autoridade que torna uma pessoa um porta-voz legítimo de um grupo social, varia dependendo do alcance de influência do grupo social e dos fatos que nele acontecem. No trânsito o porta-voz legítimo é o guarda de trânsito, mas durante um acidente com vítimas, o diploma do médico passa a ter valor superior ao dele, bem como suas opiniões e até ordens. Entretanto, mesmo um médico pode não ser obedecido durante uma situação de emergência se ele não se comunicar de uma forma que as pessoas entendam. O jargão médico não o ajuda a influenciar fora do hospital.

[33] A noção de autoridade dentro de um grupo social é o que dá ao sujeito o direito de falar e ser ouvido naquele grupo. No contexto empresarial são os resultados alcançados. Na academia, os títulos de graduação. Na publicidade, os prêmios. O interessante é que cada campo social tem critérios específicos para determinar quem é ou não líder naquele contexto. Para uns pode ser a competência. Para outros, as ligações ou a posição social. A possibilidade de ser coagido ou recompensado. E dentro do mesmo grupo, cada uma destas variáveis fará com que as pessoas daquele campo se sintam mais atraídas ou avessas ao líder como porta-voz legítimo dentro do grupo. Isso se dá porque o próprio grupo define quem será considerado uma autoridade dentro dele com base nos valores e critérios do próprio grupo, isto é, o sujeito só se torna uma autoridade dentro de seu campo social se apegar-se à ideologia de seu campo.

IDEOLOGIA (CÓDIGO DE ÉTICA) => NOÇÃO DE AUTORIDADE

[34] Assim, antes de finalizarmos esta consideração sinto a necessidade de destacar mais uma característica do líder de um campo social. Refere-se à capacidade de despertar a admiração dos outros integrantes do grupo. Todo campo social tem dominantes, dominados, ingressos e egressos. A noção de autoridade dentro de um grupo depende daquilo que essas pessoas julgam ser valioso para o sucesso de todos dentro do mesmo campo. Por exemplo, porque um professor ganha R$ 2.000,00 por mês enquanto um jogador de futebol ganha R$ 400.000,00? Porque é assim que a maioria da população (campo social em que ambos estão inseridos) os avalia. O professor vale, para a sociedade brasileira, 200 vezes menos do que um jogador de futebol. Porque isso acontece? Porque o que fará com que alguém seja considerado líder dos demais (dominantes, dominados, ingressos e egressos) é a capacidade de despertar em outros integrantes do grupo, admiração e aquiescência. Este é o estado da arte da influência. E daí talvez surja uma pergunta: como saber se as pessoas dentro de meu contexto social me veem como uma autoridade ou não?

[35] A resposta parece estar no motivo pelo qual as pessoas se aproximam de você e porque elas se sujeitam as suas opiniões, sugestões e ordens[4]. A boa notícia é que qualquer pessoa dentro de um grupo pode se tornar um influenciador e colocar os outros no fluxo da ideologia do campo social. Como isso acontece? Em todo campo social, o elemento que possuir o maior número de opções controlará o contexto por jogar habilmente de acordo com as regras do sistema – o que significa influenciar de uma forma que facilite a vida tanto dos dominantes como dos dominados. É desta forma que se adquire poder de influência dentro de um campo social. Mesmo dentre os indivíduos sem nenhum poder formal concedido pelos dominantes é possível exercer influência desde que se conheça o que os jogadores do jogo social valorizam.

[36] Pense, por exemplo, em um gerente. Seu papel dentro do campo social do trabalho não é dominar sobre seus colaboradores, mas facilitar o trabalho dos dominantes daquele grupo (diretores) enquanto trabalha junto com os liderados (dominados). Ao ajudar os diretores a manter a harmonia entre os interesses da empresa e dos colaboradores, o gerente vai ganhando destaque dentro daquele campo social. Por outro lado, no momento em que um líder dentro de uma empresa começa a jogar o jogo social e favorecer os interesses dos colaboradores (classe dominada) ele passa a ser desaprovado pelos diretores (dominantes), uma vez que atua de modo antiético com a empresa. A ideologia empresarial exige que a ordem seja mantida e os contratos de trabalho sejam cumpridos. Isso é importante para os dominantes, o que nos abre ainda outra perspectiva: em uma empresa, líder mesmo é aquele que detém o poder de permitir ou impedir o ingresso de qualquer um dentro do campo social e de manter este indivíduo dentro do campo como dominado. Quem é dominante, em outras palavras, é aquele que assina o cheque. Os demais (todos aqueles que recebem um cheque assinado por alguém que não eles mesmos) apenas jogam o jogo como todos os outros. Se algum dia esse indivíduo se destacará ou não, dependerá de sua habilidade de jogar o jogo daquele campo social, usando a arte de influenciar pessoas para unir dominantes e dominados. Parece absurdo? Não é. Desde que o sujeito conheça os princípios do poder e como as pessoas reagem a ele dentro de um campo social.

[37] Volte ao exemplo supracitado do professor e do jogador de futebol. Ele nos servirá novamente para esclarecer alguns aspectos do poder dentro de um grupo. Já que o grupo é quem avalia e determina o que é valioso ou não na figura de um porta-voz, fica evidente que o poder em um campo social não vem de cima. Ele advém do grupo. Não é algo que o indivíduo possua e nem é totalmente exclusivo de alguém. O poder raramente possui a apenas uma pessoa já que num grupo, há pessoas que preferem a personalidade do João e outras preferem a da Joana. Outra consideração importante é que o poder não é algo do tipo “tudo ou nada”. Não é o caso de uma pessoa ter ou não ter poder. O mesmo gerente pode ser influente em um departamento da empresa e totalmente desprezível em outro. O poder de um líder (porta-voz) está sempre vinculado ao grupo social. Parece que o poder se faz então, instrumento de alavancagem de objetivos, porém, sempre vinculado a aprovação de alguém. Seria muito mais fácil se pudéssemos descobrir como alcançar esta aprovação – mescla de admiração e aquiescência – em cada contexto social em que estivéssemos não acha?

*

[38] Em síntese, todo campo ou contexto social tem sua ideologia (seu próprio código de ética), sua noção de autoridade (o tipo de poder que torna uma pessoa um porta-voz legítimo) e um jeito próprio de se comunicar, (seja uma espécie de jargão daquele grupo) e de acordo com as demais propriedades daquele campo social.

[39] Desde que se conheçam estes três elementos é possível se (re) posicionar de forma ética. Melhorar a sua comunicação talvez seja a única forma de fazer isso com equilíbrio. Mas aí surge outra questão: se para uma pessoa posicionar a si mesma ela precisa entender o grupo social e adequar-se a ele, ela corre o risco de perder sua espontaneidade. Logo, como se posicionar com naturalidade?

[1] Este entendimento deu origem à crença de uma alma imortal.

[2] Aqui cabe um parêntese: a ética aristotélica compõe-se da capacidade da razão prática de orientar a vida em sociedade com base em virtudes práticas. As virtudes teóricas visavam aproximar a pessoa da sua natureza divina. Tanto as virtudes práticas como as teóricas partiam da potência intelectiva, segundo Aristóteles.

[3] O autor faz a diferenciação entre cristianismo e catolicismo porque este último afastou-se do modelo deixado por Cristo de não fazer parte do mundo, inclusive em sentido político. Quando o dito “cristianismo” se enveredou para o caminho de Igreja-Estado, deixou de servir aos propósitos de Cristo, que disse categoricamente a Pilatos, governante político que temia sua popularidade: “Meu Reino não é deste mundo”. Ora, se o próprio Jesus rejeitou governos terrestres, porque seus seguidores deveriam apoiá-los, promove-los e fazer parte deles? Se o leitor desejar se aprofundar mais neste assunto, pesquise sobre os eventos que antecederam e sucederam o Concílio de Nicéia, promovido por Constantino em 325 d.C. onde se declarou as crenças essenciais do catolicismo e compare isso com os relatos da vida de Jesus nos quatro Evangelhos.

[4] Livro IV, cap. 6, § 1-27.

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