Como o egoísmo prejudica a Comunicação?

O ESCRITOR NORTE-AMERICANO, William James, considerado por muitos “o pai da psicologia moderna”, disse certa vez que “o principal desejo do ser humano é sentir-se apreciado”. Nas relações humanas, o cerne da afirmação de James se refere à necessidade constante que temos de sentir que somos respeitados pelos outros. O respeito, juntamente com as noções de afinidade e controle, são as bases de um relacionamento pessoal salutar. É impossível sentir-se valorizado em um relacionamento em que não somos respeitados.

No entanto, parece que o respeito é cada vez mais raro. A cada dia, existem mais casos de desrespeito presentes na TV, na literatura de ficção e nos jornais e a noção principal de que, é “preciso respeitar alguém pelo simples fato de ele existir” está desaparecendo. Por quê? A resposta se deve a uma má qualidade que cresce à medida que o respeito desaparece: o egocentrismo – a atitude intelectual de que tudo se refere ao próprio ego, que leva o indivíduo a considerar apenas os seus interesses, com desprezo aos alheios.

Pense em uma roda de bicicleta comum. Ela tem pelo menos 32 raias que partem do eixo em direção ao aro, fechando assim o conjunto de elementos físicos que, devidamente combinados, recebem certa medida de tensão e flexibilidade que torna possível que esta roda gire perfeitamente e em equilíbrio. Agora, imagine o seguinte: o aro representa o círculo social enquanto as raias são as pessoas e no eixo há alguém que se julga o centro das atenções. É isso o que pensa uma pessoa egocêntrica. Ela se considera a peça mais importante de sua roda social – sem a qual a vida dos outros perde o sentido – e acredita que se os seus anseios não são atendidos quando e como ela quer, a vida das outras pessoas precisa de mais tensão e elas não serão tratadas com flexibilidade. Esta visão egocêntrica é tão danosa para o aprendizado que faz com que a pessoa se torne um ouvinte indiferente e preconceituoso. A indiferença leva ao desinteresse e o preconceito, à distorção.

Este comportamento egocêntrico pode ser percebido ainda na infância, principalmente quando a criança se dá conta de que os adultos têm outros interesses e responsabilidades além dela e que, estas outras atividades, exigirão parte do tempo que anteriormente era dedicado exclusivamente a ela. Como reação, ela se torna egoísta, exigente e não disposta a compartilhar nada que é seu. Choramingo e chantagem emocional são apenas alguns sinais de que uma personalidade egocêntrica está tentando se afirmar em busca da segurança social.

O panorama deste egocentrismo infantil é ainda mais sombrio se considerarmos o número de famílias com apenas um filho em que, a criança é realmente o centro das atenções.  O impacto é evidente. Quanto mais famílias com filhos únicos, maior o número de crianças que são tratadas como centro das atenções e maiores serão as chances de desenvolverem egocentrismo. Os dados são do educador Içami Tiba:

  • Nos anos 60 a média de filhos por família brasileira era de 5,8. Nos anos 2000, a taxa de fecundidade feminina caiu para 1,8;
  • 20% das famílias brasileiras em 2010 tinham filhos únicos;
  • Uma em cada 3 mães no Ocidente tem apenas 1 filho;
  • Entre as famílias com renda entre 3 e 5 salários mínimos, a média é de 1,3 filhos; acima de 5 salários, o número cai para 1,1 filho por família;

Ainda de acordo com o educador, não é raro que os pais do filho único também sejam filhos únicos o que coloca a criança ainda mais no centro das atenções. Em algumas famílias, os tios não são pais e adotam os sobrinhos como filhos. O resultado é que a criança vira o eixo na roda social familiar em que os pais, avós e tios são as raias que fazem tudo girar em torno dela. Como bem resumiu Tiba, “ser filho, neto e sobrinho único é muita areia para um só caminhãozinho”. Toda esta atenção (e pressão) gera uma personalidade infantil e egocêntrica estendida não apenas até a puberdade, mas também à fase adulta. Sentir-se “o” único pode trazer sérios problemas para os relacionamentos pessoais e afetivos, pois para o egocêntrico, sempre haverá alguém disposto a completa-lo mantendo viva a dependência nascida na infância (Tiba, 2010, p.37).

Obviamente, não são apenas os filhos únicos que manifestarão um comportamento egocêntrico na fase adulta. Todas as pessoas tem o egocentrismo latente. O papel dos pais é ‘cortar esse mal pela raiz’ e ensinar o filho a compartilhar, o que parece não ser o caso da sociedade atual. Paradoxalmente, a personalidade egocêntrica na fase adulta se baseia no raciocínio falacioso da autossuficiência – a ideia de que “é possível saber tudo sobre alguma coisa e aquilo que se sabe é tudo o que existe para saber”. Essa premissa enganosa vai contra a própria razão do egocêntrico, visto que ele se julga a peça chave de seu círculo e ao mesmo tempo espera ser atendido pelos outros. É este paradoxo que faz com que o ouvinte egocêntrico concentre-se mais em falar do que em ouvir: ele julga saber tudo (se é assim, porque ouvir os outros se eles não têm nada para ensinar?) e está satisfeito com o que sabe (porque se considera possuidor de todo o conhecimento sobre o assunto). Como resultado deste egocentrismo, vemos pessoas intolerantes em relação à opinião alheia. Uma intolerância mesclada com a autoindulgência quando ele é o alvo de julgamentos.

Tente imaginar os impactos do egocentrismo no casamento. Quando um dos cônjuges não aceita que o outro pode saber mais do que ele sobre determinado assunto, basta um comentário para que se inicie uma discussão. É a famosa cena da família que está saindo de férias e a mulher sugere ao marido que tome determinado caminho e ele ‘tapa os ouvidos’ insistindo em sua opinião. Quando se dá conta de que eles se perderam na estrada, o marido egocêntrico não admite e ainda culpa a esposa porque ‘ficou falando na cabeça dele’. Com o tempo, o egocentrismo mina o desejo de ficar junto, de conversar um com o outro e de se apaixonar de novo. A comédia autobiográfica de Woody Allen, Noivo neurótico, noiva nervosa (1979), ilustrou bem o papel do interesse mútuo em aproximar as pessoas em um relacionamento. Também mostra que quando os interesses de um se sobrepõe às necessidades de outro, o relacionamento se deteriora. E, novamente, o que ocasiona essa sobreposição de objetivos é o egocentrismo.

Talvez por isso, o amor romântico seja uma utopia para muitos nos dias de hoje. Por exemplo, nos últimos anos temos visto muitas pessoas dando conselhos sobre como “conquistar uma mulher”, “como agarrar o seu homem”, “como encontrar um verdadeiro amor” e mais recentemente, “como blindar seu casamento”. A ampla aceitação destas propostas e o sucesso de publicações deste tipo são um sinal de que as pessoas, de modo geral, estão perdendo a capacidade de se relacionar e, consequentemente, de usufruir os benefícios de um relacionamento saudável. Estão com medo de relacionamentos sérios ou fazem isso apenas para atualizar o perfil do Facebook.

Pense no efeito de movimentos que promovem práticas como poliamor (equivalente à suruba dos anos 70 e às orgias romanas do século 1) ou então manifestações que em sua base teórica tem ideias gaysistas, abortistas, feministas ou a ideologia de gênero, some isso à propagação oferecida pela mídia e você notará que o resultado de todas estas ideias não é outro senão a confusão mental na cabeça de quem um dia poderia pensar em ter uma família. Sugira a um jovem que ele tenha um relacionamento monogâmico ou pergunte quando ele pretende se casar e você ouvirá em resposta, perguntas como: “O quê? Constituir uma família? Ter filhos? Viver com uma pessoa só até a morte?”, ditas em tom de espanto e superioridade, seguidos de uma risada.

Entrevistei informalmente, vários jovens solteiros entre 20 e 35 anos, de ambos os sexos, perguntando o que eles achavam sobre “relacionamentos sérios” e se julgavam possível encontrar a “pessoa certa”. Entre os rapazes, muitos disseram que há uns dez anos, as pessoas eram diferentes: as mulheres gostavam de flores e romantismo, principalmente se viessem de um cara trabalhador. Hoje, segundo eles, “elas gostam de beleza e dinheiro” – uma visão pouco altruísta. Mas, o que os rapazes esperam?

No tempo do Tonico e Tinoco o padrão da mulher ideal era a cabocla Teresa, que foi assassinada pelo marido por uma suspeita de adultério. Para Ataulfo Alves, a mulher certa era aquela que não exigia nada, igual à Amélia, que ‘passava fome e achava bonito…’. Já o Sérgio Reis com a praticidade do homem do campo, defendeu a ‘Panela Velha’ que faz a ‘comida boa’. Atualmente, muitos homens acreditam que a mulher ‘perfeita’ é aquela que “tem sinceridade”, “que é parceira”, “que se cuida”, “que gosta de filme pornô e vodca”. (Se alguém aceita este tipo de critério para avaliar o tipo de pessoa que ela é, em quê está baseado este relacionamento?).

No entanto, se a mulher não pode ser igual à Cabocla Teresa, nem como a Amélia e considerando que nem todos julgam ser a tampa de uma Panela-Velha – qual é a mulher certa? Aquela que te completa. Lembre-se de quantos caras feios se casam com mulheres lindas e as fazem felizes? E por quê? Por que um completou o outro. Não é só uma questão de grana, beleza e status. A pessoa certa é aquela que tem as qualidades que o outro luta para desenvolver e não consegue. Mas é difícil perceber isso se o egocentrismo falar mais alto e o faz sentir-se autossuficiente.

Certa noite, eu assistia a uma entrevista, até que num dado momento o entrevistador anunciou que iria conversar com uma “jornalista que dava conselhos sobre sexo e ensinava as mulheres a liberar a porta dos fundos”. Mudei de canal para não ver a entrevista, porque qualquer pessoa que se valha de um diploma numa área para dar opinião sobre assuntos de outra área que ela desconhece completamente, é uma idiota. Era o caso da tal jornalista. Provavelmente, ela se vale do direito à liberdade de opinião e expressão (que vale para quem trabalha na imprensa) para falar o que quiser, mesmo que não saiba do que está falando.

Sobre este assunto específico, ela desconhece que o sexo anal ‘empurra’ restos de fezes no sentido contrário ao movimento natural do intestino, além de causar fissuras no reto e colocar as fezes em contato com a corrente sanguínea. Não precisa ser muito esperto para saber que o sangue vai até o coração. Com sorte, o sangue de quem pratica sexo anal (homens e mulheres) só levará para o coração escherichia coli – uma bactéria comum nas fezes – mas também pode causar endocardite bacteriana e comprometer as válvulas do coração. Os prejuízos causados pelo sexo anal são uma questão de anatomia, histologia e trato intestinal, não de revistas pornôs ou opinião popular.

O exemplo acima mostra que muitos entram no casamento com expectativas que rebaixam a outra pessoa. Deste modo o egocentrismo está presente até mesmo nos hábitos conjugais. Muitos que assistiam a filmes pornôs enquanto solteiros, após se casarem ficam na expectativa de que a esposa faça o mesmo que as atrizes pornôs.  Quando a esposa rejeita certas práticas, alguns se frustram com o casamento – quando o real motivo é porque não conseguiram prazer com o sofrimento da outra pessoa.  Eis o mal que a pornografia causa: torna quem a consome uma pessoa animalesca e egoísta. Afinal, quando se gosta realmente da outra pessoa, não se deve esperar dela algo que a rebaixe ou prejudique sua saúde física ou mental apenas por agressividade e sadismo.

Por outro lado, entre as mulheres solteiras com as quais conversei as queixas quanto à “utopia do amor verdadeiro”, dizem respeito ao suposto interesse dos rapazes em piriguetes que ajudam a dividir a conta no camarote (i.e., uma combinação quase impossível!). No fundo, a queixa se refere à mulher com atributos físicos avantajados e à mostra, que rebola e não ‘dá despesa’.

Entretanto, do mesmo modo que os rapazes muitas vezes escolhem as mulheres com base numa visão estereotipada – idealizada – seja pela imagem que eles têm das mães, avós e até das fantasias e fetiches que eles assistiram em filmes eróticos, as mulheres também tendem a analisar os homens com base na visão que tem dos machos da sua casa. E, em geral, não é uma perspectiva muito positiva. Não adianta esperar que o namoradinho que acabou de entrar na faculdade tenha o mesmo patrimônio que seu pai tem depois de 40 anos de casado. Para que o homem produza riquezas ele vai precisar trabalhar duro e dedicar tempo para construir uma carreira – além do apoio de uma mulher compreensiva. São raros os casos em que o homem subiu na vida sem a ajuda da esposa. Isso equivale dizer que não adianta esperar por um namorado que vai lhe dar status.

Nos contos de fada, o príncipe encantado vinha montado cavalo branco e colocava a mocinha na garupa – um símbolo de status. A mensagem é bem clara: se antes ela andava a pé, ao conseguir encontrar seu príncipe, ela deixaria essa realidade para trás e começaria uma nova vida menos sofrida. Embora muitas mulheres hoje rejeitem a ideia de ‘príncipe encantado’, quando argumentam que ‘o cara não tem um carro nem sequer uma moto’, estão na verdade cobrando um cavalo branco. Querem obter status à custa do outro. Sinto dizer o que você já sabe: isso não vai acontecer. É mais fácil o contrário: você terá que ajudá-lo a crescer. A mulher inteligente neste início de século é aquela que escolhe um cara que gosta de trabalhar e o empurra nessa direção por que ela sabe que só de ‘lá de cima’ ele poderá lhe dar status e outras coisas que exigem tempo e dinheiro.

Outro critério que apareceu em minha pesquisa: a aparência física. A imagem publicitária dos anos 80, do homem comportado e com traços efeminados, não passa de uma forma de identificação com o público feminino. Homem assim não tem senso prático. As ‘1001 utilidades’ dele nunca aparecem. A beleza é o meio pelo qual a realidade atrai os sentidos dos seres humanos e capta sua atenção. Este é o conceito de belo e até um corte de cabelo pode fazer isso por uma pessoa. Se você está interessada apenas na beleza de um homem, o número de candidatos se reduz muito. O que os torna elegíveis são os traços de caráter, em especial: entender o valor do trabalho (ser produtivo), o respeito ao próximo, o autocontrole e a moderação nos hábitos e a alegria diante da vida.

A mulher só enxergará isso se for capaz de superar o egocentrismo. Infelizmente, quanto mais jovem, mais egocêntrica a pessoa se mostra e menor é a noção que ela tem de que é assim. Outro dia desses, ouvi a seguinte conversa entre dois jovens de aproximadamente 25 anos. Eles estavam perto de mim na fila do banco, quando ela disse:

–“Olha, no meu caso, o amor verdadeiro não existe! Comecei minha vida amorosa aos treze. Namorei sério com dois caras que me magoaram muito. Um me abandonou na semana do casamento e o outro, não assumiu nosso filho.”

–“Puxa! Não sabia que você tem um filho. Que legal!”.

–“Não tenho. Eu abortei”.

–“Ah! Entendi. Você quer ter filhos se achar uma pessoa bacana mais pra frente?”.

–“Não posso. O médico disse que meu terceiro aborto foi muito arriscado…”.

Agora, leia de novo, por favor, a primeira frase deste diálogo. Fico me perguntando se o que disse sobre o amor verdadeiro se referia ao comportamento dos dois ‘caras que a magoaram’ muito ou ao dela que tirou três vidas. O amor verdadeiro não é algo que se encontra na rua. É um sentimento que se aprende. Depois de certo tempo de convivência e resignação mútua é que um homem e uma mulher podem dizer que amam um ao outro. Tem que ter muito perdão, paciência e confiança. Isso leva tempo para desenvolver e uma disposição de arcar com as consequências que uma pessoa egocêntrica não é capaz de suportar.

Percebe como o egocentrismo prejudica os relacionamentos interpessoais? A conclusão a que cheguei é a de quem tanto os homens como as mulheres, rejeitam a ideia de um relacionamento amoroso sério (o que trará consequências sociais nos próximos anos) porque esperam obter “satisfação total e garantias” de que suas visões estereotipadas e egocêntricas serão atendidas. O ponto aqui é como a visão egocêntrica leva a pessoa a construir um discurso contrário ao relacionamento sério – uma fala argumentativa – que não é necessariamente verdadeiro. A pessoa que realmente quer ficar solteira não se preocupa em convencer os outros disso.

Em todos estes exemplos está presente a visão autocentrada: olhar para os outros como objetos para a satisfação dos próprios desejos e a ausência do desejo de fazer o que estiver ao seu alcance para que o outro consiga ser feliz ao seu lado. Tendo em vista que o egocentrismo é um defeito de caráter que acompanha o sujeito desde a infância e tem levado as pessoas a evitar relacionamentos sérios ou buscar prazer na dor do outro, não é de admirar que ele cause a surdez mental. Um ouvinte egocêntrico não tem o desejo de aprender com o outro, de entendê-lo e de ter um relacionamento salutar com ele. Em um relacionamento interpessoal, o egocentrismo revela seu comportamento tóxico em duas atitudes bem específicas que podem ser ilustradas com dois ícones: o “ouvinte Narciso” e o “ouvinte Maquiavel”. Falaremos sobre isso amanhã e quinta. Agora, que destacar para você que PESSOAS EGOÍSTAS NÃO SÃO BONS OUVINTES E POR ISSO, TÊM PÉSSIMOS RELACIONAMENTOS. Combata o egoísmo!

Até a próxima aula!

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